Sábado, 25 de Outubro de 2008

Ainda sobre José Cardoso Pires.

Não me queria centrar muito nas questões de realização e produção deste documentário, guiado pela Clara Alves Ferreira, que seguem um estilo português de mediocridade a todos os níveis, principalmente técnico. É certo que não é fácil filmar à noite ou em esplanadas de bares, locais muito frequentados por José Cardoso Pires. Mas questões de estrutura (todo o documentário apresentava-se bastante desarrumado) e de adequabilidade do texto lido pela voz off - deixam muito a desejar. E depois há toda uma estética que desaprovo profundamente, um estilo marcadamente português que segue a má imagem, o mau som, a fraca edição.

Como disse não queria embarcar por aí. Acima de tudo, este documentário é um objecto único que capta os diferentes ambientes de JCP. O escritor e a sua escrita, o homem e a sua família, as amizades e os problemas de saúde. E também se torna rico porque qualquer intervenção de JCP é uma pérola. Ficam aqui alguns highlights que gostaria de partilhar convosco:
  • "Sinto-me feliz por estar só. Gosto da solidão e para escrever é preciso estar só".
  • "A função da escrita é corromper. Mas corromper a escrita é difícil".
  • "Ser meticuloso é um institinto de defesa".
  • "Eu sempre procurei uma máquina de apagar, nunca procurei uma máquina de escrever. Os computadores são essa máquina de apagar".
  • "No cinema aprendemos a contar".
  • "O Neo-realismo ajudou a limpar a prosa. Com os erros todos que fez, promoveu aquela libertação da literatura portuguesa. Começamos a ser mais abertos".
  • "Quando amamos uma pessoa há um sentido de propriedade terrível".
  • "Não tenho saudades de mim. (...) O pior fardo que tenho sou eu próprio. (...) A pessoa vai ao espelho, olha-se e diz: "Tu também és um grande filho da mãe".
  • "A medicina também serve para ajudar a matar. Admiro muito a eutanásia e não tenho paciência para esses falsos heróis que só querem salvar as vidas".

Não sei se estas citações lhe diram alguma coisa sem o devido contexto da entrevista. Mas ficam aqui algumas das ideias daquele a quem gosto de chamar o Hemingway português, um dos grandes escritores da história e que está dotado de um esquecimento doloroso.

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